Aperitivo Creedence


Conforme já publiquei, eis a tradução da biografia italiana do Creedence Clearwater Revival, encomendada ao experimentado roqueiro Paulo Sisinno. O projeto, e a redação final ficarão por minha conta. À medida que os textos forem finalizados, serão disponibilizados aqui, no Brotox. O pequeno trecho abaixo ainda não foi remodelado, mas serve como aperitivo para os interessados. Bom proveito !!!

……………………………………………………..

A essência do CCR

Filosofia, sucesso e contraste com o ambiente californiano.

Esta premissa não pretende ser uma investigação sociológica sobre um período histórico-cultural, mas somente um enquadramento do período em que nasceu, se desenvolveu, atingiu o seu ápice criativo e expressivo, e afinal concluiu-se, o fenômeno CCR.

Para aqueles que estiverem interessados em conhecer melhor o movimento underground, hippie, yippie, etc., aconselhamos os textos de personagens como Ginsberg, Kerouac, Burroughs, Huxley, M. McClure, Ferlinghetti, Corso, Sanders, Mailer, Rubin, Leary, Hoffmann, Orlovsky, e mais especificamente as publicações “New Left”, de Jack Newfield e “Play Power”, de Richard Neville (uma espécie de diário de viagem e guia espiritual para várias gerações). Além disso, para uma visão global e uma crônica do movimento, o livro “Real, hippie yippie”, de Fernanda Pivano.

1968 – ano símbolo de contestações e reivindicações dos jovens, o “flower-power”, a psicodelia, etc. Ápice daquele movimento que teve o seu início nos primeiros anos da década de 50 com os famosos “reading” (leituras coletivas) sobre o dissenso beat, com os primeiros experimentos com o peiote e o ácido lisérgico, e com os estudos de filosofia oriental. Enfim, esta história já é bem conhecida, usada e abusada, e frequentemente mal-interpretada. Recordemos somente como etapas fundamentais desta evolução o “reading” de 1955 em São Francisco, que marcou o nascimento desta “revolução” e deste fermento cultural e sóciopolítico, costumeiramente chamado movimento beat, underground ou “contracultura”. Uma outra etapa fundamental, o segundo “reading” de poesia, dez anos depois, em 10 de junho de 1965, no Royal Albert Hall de Londres. Organizado por Allen Ginsberg, este evento antecipou o nascimento, em 1966, do movimento hippie, posteriormente consagrado em 14 de janeiro de 1967 em uma aglomeração, organizada pelo mesmo Ginsberg, no Golden Gate Park de São Francisco.

O ano de 1968 é também o ano da explosão da contestação estudantil de massa (ainda que a primeira ocupação da Universidade de Berkeley tenha ocorrido em 1965), que teve como líder reconhecido Mario Sávio. É também o ano de nascimento de grupos politizados como os SDS, Estudantes para a Sociedade Democrática, e os SNCC, Comitê dos Estudantes para a ação não violenta. Justamente naquele período, os hippies, ingênuos, pacíficos e não violentos, se juntam (ou melhor, são absorvidos) pelos grupos contestadores e se organizam em um partido chamado Yippies, ou YIP, Partido Internacional dos Jovens, guiados por Abbie Hoffmann, Paul Krassner e Jerry Rubin. O próprio Rubin escreve no seu famoso manifesto-programa: «1968 é o ano dos yippies … a Nova Esquerda criou o “teach-in”, os hippies criaram o “be-in”, e os yippies estão criando o “live-in” … ».

Em 1972, Peter Orlovsky diz a Fernanda Pivano: «Everybody grew a belly», isto é,  «todos ficaram barrigudos», para indicar o fim de uma aventura ou simplesmente a não desejada mas inelutável modificação das situações, dos comportamentos, das consciências, do ambiente, do pensamento e dos costumes em geral. O ponto que ninguém esperava intimamente que chegasse, mesmo tendo a consciência da impotência diante da inevitabilidade da mudança.

Tudo isto serve para introduzir esquematicamente o período em que se enquadra a história do Creedence, para analisá-la criticamente e historicamente; para compreender o seu pensamento e, sobretudo o seu crescimento e evolução através da figura central e determinante de John Cameron Fogerty.

1968 / 1972 – É justamente sob esta luz e neste contexto que se desenrola e se articula a esplêndida aventura do Creedence. Na Califórnia nascia um novo movimento, e na mesma Califórnia nascia uma nova música que, nutrindo mitos, esperanças e sonhos de liberdade, tornou-se representante e elemento propulsor, emocional-emotivo, catalisador e unificador para os jovens e para sua ideologia. O Creedence, mesmo não se identificando inteiramente com a comunidade de Frisco, como é conhecida São Francisco, nasceu neste contexto, e em poucos anos tornou-se a mais popular, famosa e rentável banda de Rock do mundo. Em 1970, o jornal Los Angeles Times classificava o CCR como: «O mais popular, potente e original grupo dos EUA nos dias atuais». Alguns críticos compararam a história do Creedence àquela de Cinderela, e outros – especificamente Dan Forte, da revista Guitar Player – a figura de John Fogerty àquela de Cassius Clay.

Entretanto, temos que detalhar e explicar brevemente os motivos pelos quais o input do grande sucesso comercial e o output da filosofia e da imagem do grupo, deram lugar a um feedback contraditório por parte de crítica e público. A carreira do Creedence foi uma contínua luta para equilibrar-se entre as exigências do público roqueiro mais radical e as glórias do “show business do Rock” e de suas engrenagens. A banda de fato conheceu a glória, o luxo e as honrarias, mas também conheceu não poucas amarguras e incompreensões por parte da comunidade hip; e somente o tempo evidenciou, indiscutivelmente, objetivamente e concretamente, a figura de Fogerty e o som do “Creedence” como matriz das raízes do rock dos anos 80.

Por um lado, o CCR manteve, durante quatro anos, um predomínio absoluto nas “paradas de sucesso” dos EUA, conseguindo 20 hits nos Top 10 (dos quais vários em primeiro lugar), tendo vendido mais de doze milhões de álbuns e sete milhões de compactos. (Mesmo atualmente, depois do grande sucesso de “Centerfield”, foram retomadas vertiginosamente as vendas do álbum “Live” oficial e da antologia “Chronicle”, que ganharam, respectivamente, um disco de ouro e um disco de platina).

O primeiro álbum do Creedence Clearwater Revival ganhou um disco de ouro (o que significa mais de um milhão de dólares de lucro!), enquanto os cinco discos seguintes ganharam um disco de platina (isto é, mais de um milhão de cópias vendidas e cerca de cinco milhões de dólares de lucro cada um!). Todos os compactos creditados ao grupo (com exceção do primeiro, “Suzie Q Part 1-2”) também conquistaram o disco de ouro.

Por outro lado, porém, a estética do grupo, tão enxuta, direta e simples não conseguiria livrar-se tão facilmente das acusações de superficialidade, comercialismo e falta de comprometimento. O dogmatismo e uma certa ortodoxia engajada da época classificariam a música do Creedence como “fácil” e “de supermercado”, e o grupo acabaria sendo injustamente sendo prejudicado por este extremismo.

De fato, muitos foram afetados negativamente pelo sucesso e pela imagem do grupo, que refletia e espelhava a escolha sistemática e constante pelo compacto de 45 rotações como veículo imediato de comunicação e expressão, sem compreender que a escolha da estética do “compacto” representava só e exclusivamente o ponto a partir do qual Fogerty & Cia. pretendiam realizar a sua obstinada e resoluta ideia: retomar as tradições e as construções mais genuínas, imediatas e instintivas da primeira fase do rock’n’roll e do rockabilly (Bill Haley, Elvis Presley, Carl Perkins, Barnett Brothers, Eddie Cochran, etc.) e revitalizá-las, adaptando-as à realidade e à vida quotidiana que eles mesmos viviam e sofriam. Atualmente, em plena fase de volta às raízes do rock, alguns dos grupos mais apreciados e qualificados (Los Lobos, Blasters, Phil Alvin) constroem suas sonoridades próprias com base na recuperação e assimilação/repetição das raízes e das sonoridades dos anos sessenta. Naquela época, entretanto, esta ligação de Fogerty, tão local e fiel a alguns valores considerados ultrapassados e obsoletos, e a serem obstinadamente transcendidos – foi sentida e considerada pela comunidade hip como estranha, adversa, ultrajante, reacionária e conservadora. O grande sucesso alcançado pelo grupo foi responsável pelo resto.
Em plena era psicodélica – Haight Hasbury, LSD, as longas músicas de mais de meia hora de duração, grupos politizados e raivosos como Country Joe & the Fish, Big Brother and Holding Company, Count Five, Moby Grape, Mistery Trend e suas “viagens” orientais, Great Society e seus 20 minutos de psicodélicos solos de sax – o CCR com apenas 3 minutos de Rock’n’Roll enérgicos, diretos e límpidos, que sempre se transformavam em sucessos das paradas, pareciam a muitas pessoas provocadores e imperdoáveis. Assim, o CCR, perfeitamente eqüidistante tanto da política tradicional, como do maniqueísmo que imperava na época, e do radicalismo exasperado de alguns movimentos, um grupo completamente autônomo, seja em relação à “Bubble-gum music” ou à psicodelia, seguindo coerentemente a sua direção própria, acabaram ficando de certo modo ideologicamente isolados; sempre e de qualquer modo discutidos, amados ou odiados, considerados ao mesmo tempo como precursores e estranhos à sua época.

O ponto focal para a explicação dos julgamentos contrastantes e opostos que acompanharam a carreira e a obra do Creedence nos leva, então, a dois fatores principais:

1) Em termos subjetivos: o CCR foi uma vítima de seu próprio tempo, principalmente de uma visão de mundo unilateral, dogmática e intransigentemente extremista do “Movimento” daquela época, que desdenhava com ferocidade e firmeza de muitos dos valores e dos símbolos representados pelo CCR. A este propósito, é interessante lembrar uma recente declaração de Jerry Rubin, ideólogo e fundador do movimento Yippie, auto-explicativa: «Nós éramos em princípio, e também um pouco ingenuamente, contrários e ferozmente contrários a tudo aquilo que representasse a eficiência; tudo aquilo que fosse “eficiente” era algo a ser combatido, não era politicamente justo; tudo aquilo que fosse ineficiente seria bom e politicamente justo. Nós pensávamos deste modo, sem considerar absolutamente as conseqüências e os resultados deste comportamento (interessante a relação com “O paradoxo das conseqüências” de Weber), não captávamos o sentido da realidade. Por exemplo, odiávamos o dinheiro e o sucesso, como representação de eficiência, sem entender que, de qualquer forma, a eficiência e os seus meios são básicas para a vida de qualquer organização».

Além disso, aquela revolução e evolução de costumes fortemente ligada a várias formas criativas, que se desenvolveu idealmente, cronologicamente e em simbiose com muitas áreas – da literatura, com Dos Passos, Faulkner, Hemingway, à música com Charlie Parker, que criando o “be-bop” criou também um novo estilo de vida, lançando as bases para a rebelião a qualquer regra e a qualquer conformismo – , atingiu o seu ápice justamente entre os anos 60 e 70, caracterizada frequentemente e fundamentalmente por conteúdos e manifestações externas provocatórias e chamativas. Basta pensar em Mike McLure, que escandalizou a todos inventando para as suas obras a linguagem “bestial”, para não falar da estreita ligação que unia todas as formas de expressão artística: das poesias e incitamentos à revolta de Timothy Leary, à filosofia oriental de Allen Ginsberg e Gary Snyder; até certos aspectos do rock’n’roll nascidos justamente das formas inovadoras dos jazzistas do bebop – como, por exemplo, a estética dos solos.

Em todos os estados e em todas as cidades, a música vivia em paralelo com os eventos sociais, de fato esta constituía o elemento propulsor que reforçava, com o blues, o jazz bebop, e com a explosão clamorosa e inovadora do rock, a união e a simbiose entre a música e o meio social, dando força e vigor às formas e às ideias musicais. Aquele foi um momento inigualável de fermentação, vivacidade e liberdade criativa e cultural. Em conseqüência, Rolf Ulrich Kaiser afirmou: «O fato de que a música daqueles tempos tenha sido chamada “O som de São Francisco” depende exc1usivamente de fatores extra-musicais, sobretudo sociológicos. Os grupos de Frisco frequentemente colaboravam entre si, viviam juntos em comunidade, condição essencial para um som coletivo».

2) ……….. (continua)

One response to this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: